Segunda-feira, Novembro 7

Monte Serrat: de dentro pra fora e de fora pra dentro


Comunidade organizada pra vencer as roubadas.

Por Rui Fernando Neto

Foi num sábado de manhã ensolarado que subi no Morro da Caixa d’Água, hoje Monte Serrat, para entrevistar um negro de olhos azuis chamado Gentil Camilo do Nascimento Filho. Quando o ônibus passou por mim, já estava na metade da subida. Decidi completar a pé para economizar um real e cinco centavos da passagem.

Logo no início da rua General Rosinha, a que é asfaltada e vai até o topo do Monte Serrat, uma placa: Advogado da Família e Criminalista. Alguns metros depois fica a Escola de Samba Embaixada Copa Lord, fundada em 1955, reduto de organização e folia da comunidade. Outro ponto de organização é o Centro Cultural Escrava Anastácia, que funciona na igreja católica do Monte Serrat, e neste dia promovia Ação com as crianças do local. Até se chegar no alto, ainda tem duas creches e uma escola estadual que funciona até a 8ª série.

A vista é linda, tirando os prédios que atrapalham. O dia sem vento deixa o mar liso e transparente, mesmo nas praias do Cagão das Baías Sul e Norte, poluídas pelos esgotos.

O povo aproveita o fim da semana para trabalhar em casa, limpar o terreno, arrumar o telhado e também conversar e ouvir música com os vizinhos. Muitos têm de trabalhar para os patrões também no sábado. Vão a pé ou de ônibus.

Enfim, chego na casa do Gentil do Orocongo. Bebemos água, café e conversamos sobre quase tudo das 9h até o meio-dia.

Brotoejas pelo corpo’

O morro tem muitas nascentes, o barulho das águas rolando pelas pedras é divino. Só que aqui a prefeitura não canaliza o cocô da turma para jogar ao mar, cada família faz as suas fossas como pode e assim acaba poluindo a própria água. Os bueiros são todos entupidos, e quando chove a água alaga casas e ruas, traz o lixo revirado pelos cachorros, os ratos e as doenças se proliferam.

Conversando com crianças, elas me contam que já “baixaram” no hospital com diarréia, infecção intestinal, vermes, e uma diz: “o meu primo tá com brotoejas pelo corpo, deve ser do esgoto que fica empoçado na casa dele”. Na General Rosinha tem uma vala que vai até embaixo, e que deveria canalizar apenas águas da chuva, mas se vê bastante xixi e cocô descendo junto. O que as pessoas podem fazer? Vão ficar com o esgoto no seu quintal? Não. Por que nos prédios da Beira Mar o esgoto não entope?

Gentil veio morar aqui em 1953. Ele conta que, na década de 80 a Companhia Catarinense de Água e Esgoto (Casan) levou água até a creche, que fica na metade do morro. O povo lá de cima continuava pegando água de um único poço artesanal. A comunidade reclamou. A Casan levou água até a escola. Ainda não era água suficiente para abastecer todas as famílias. “Eles diziam que não tinham bomba para jogar a água aqui pra cima, mas quando a RBS chegou ali no topo, a água veio com tanta força que passou direto, nós não podíamos beber nem usar. Até que o primeiro morador fez um ‘gato’ e puxou água pra sua casa, e assim todos foram puxando água, quando eu fui fazer o ‘gato’ o cano estourou (conta rindo) tive que chamar a Casan pra arrumar. Ainda bem que veio um funcionário gente boa e fez a instalação pra mim. Do mesmo jeito funciona a instalação da luz, aqui no topo”.

‘Um tiro nas costas’

“O morro aqui é bem tranqüilo, tu podes subir e descer a pé sem problemas, ali pro lado do Saco dos Limões é que de vez em quando matam um. No tempo que o Baga mandava na área, ai mesmo que era bom, porque não tinha disputa pelo tráfico”, revela Gentil.

Baga foi assassinado como queima de arquivo, pois ia depor numa CPI que incriminaria deputados e outros ricos de Florianópolis, financiadores do narcotráfico no estado.

Já outras crianças falam que no morro tem bandido, e que são quase trinta. Uma afirma que, “aqui tem tiroteio quase todo dia, mas é um lugar bom pra viver!”. Falando em tiro, logo uma menina se manifesta: “o pai dela levou um tiro nas costas e cinco na cabeça”, apontando a amiga.

Resta saber que fatores levam homens e mulheres a entrarem no crime. Ninguém nasce bandido. “O capitalismo é que rouba o brilho dos nossos olhos. Ainda crianças, deixamos de sonhar, precisamos comer, sobreviver”, alerta um sociólogo que não quis se identificar.

Os latifúndios fizeram muitas pessoas abandonarem o campo e virem para as periferias, mas não tem espaço pra todo mundo.

A “rapaziada” informou que os empregos que aparecem pagam menos de um salário mínimo e são pesados, como virar concreto para fazer casas de ricos. Na época do seu Gentil, hoje com 60 anos, ele foi cortar pedras na penitenciária e viu que os presos levavam uma vida melhor que a dele, pois ficavam “coçando” e depois ganhavam comida.

Será que a gurizada vende crack por que quer? Não, porra. São químicos dos E.U.A., agentes da CIA na Colômbia, que culpam o país pelo tráfico, e eles mesmos inventam estas drogas para alienar o povo, segundo a jornalista Rosana Bond. “Eles têm medo que o povo se organize. Querem nos deixar sem raciocínio, nos destruindo, nos viciando no consumismo, no egoísmo e nas drogas químicas”, diz o historiador Marcelo Pomar.

Se um cara de vinte anos pode fazer seu dinheiro para sustentar mulher e filhos com venda de drogas e roubo, por que ele vai querer trabalhar como escravo e receber um salário de fome? Parabéns para aqueles que agüentam isso, mas tem muitos que já viram seus pais trabalharem para enriquecer os outros, até morrerem, e acabarem sem deixar um colchão para o filho.

E não é só isso: as novelas, os filmes de Hollywood, os jornais fabricantes de notícias que interessam aos seus patrões, os professores que pregam o egoísmo, e outros do gênero, incitam as pessoas a consumirem, a terem mais que o próximo, a serem mais que o irmão, a vencerem sós, cada um por si. Até “sacanagem’ ensinam aos nossos filhos, antes mesmo de eles terem pentelho. A cultura eles trazem de outro país”.

Querem mesmo é que o povo fique burro, e que obedeçam as suas ordens e compre os seus produtos, custe o que custar, até vidas.

‘Vizinho é mais rápido que a ambulância’

Pra subir depois da aula, o motorista do ônibus dá uma força, abre a porta de trás e a criançada embarca. Alguns moradores têm carro, se alguém precisar ir para o hospital, aqui, o vizinho é mais rápido que a ambulância. De skate também se desce, mas são poucos, o Mika e o Gui são dois dos habilitados.

A crianças vão à praia poucas vezes por ano. Eles moram numa ilha! A passagem do ônibus é cara. E quando o Brasil saiu da última ditadura militar na década 80, os políticos inventaram um conjunto de leis, ou Constituição Brasileira de 87, que diz que é do governo a responsabilidade de dar pro povo o acesso ao lazer, à cultura, à saúde, à educação etc. Mas na pratica nada disso acontece. Será que são eles que iram resolver isto para os brasileiros?

‘Trabalho pro povão não quer dizer dinheiro’

“Ser empresário não dá, estudar, nem pensar. Tem que trampar, ouvir papo, os irmãos sustentar. Ser criminoso, aqui, é bem mais prático, rápido...”, cantam os Racionais MC’s.

Trabalho pro povão não quer dizer dinheiro. A mãe de família trabalha pouco? Não. Trabalha muito mais que um monte de magnatas. E recebe algum real por isso?

No mundo, já é comum os trabalhadores se organizarem e trabalharem juntos, em forma de cooperação. Assim, sem patrão para enriquecer com o trabalho do povo, é comum a prosperidade profissional dos trabalhadores (sem precisar “puxar o saco” de ninguém). Existem cooperativas dos criadores de marisco, das rendeiras, dos pescadores, dos jornalistas, dos metalúrgicos, dos agricultores, recicladores e outros.

CIPLA, Interfibra e Flaskô são três fábricas cujos donos não respeitaram nenhum direito dos seus trabalhadores e iriam falir, não fosse pela ousadia dos 2070 empregados das três empresas que assumiram as fábricas em 2003, expulsaram os ladrões (ex-donos) e trabalham firme até hoje em cooperação. Lá, engenheiros e faxineiros recebem o mesmo salário! A CIPLA fabrica plásticos e derivados, a Interfibra faz fibra, ambas são de Joinville-SC. A Flaskô, do estado de São Paulo,fabrica embalagens com o plástico e a fibra das outras duas.

São excelentes exemplos de organização do povo, que ainda não tem um presidente como o da Venezuela, Hugo Chávez, que usa até o exército para garantir os empregos. Existia na Venezuela uma empresa fabricante de papel, chamada Venapel. Quando seus donos começaram a ganhar mais dinheiro em outra área, venderam a fábrica para a concorrente, que estava tratando de quebrar a nova aquisição para ficar sozinha no mercado. Os trabalhadores se uniram, e com a ajuda do exército do seu país, expulsaram a multinacional que quase os deixou na miséria. Hoje trabalham juntos para si, como aquelas três brasileiras.

1 Comments:

At Quinta-feira, 14 Dezembro, 2006, Anonymous Pedro Santinho said...

Muito bom companheiro por ajudar a divulgar nossa luta

Pedro Santinho
Conselho de Fárbica da Flaskô
www.fabricasocupadas.org.br
pedro.santinho@uol.com.br

 

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